MOÇAMBOLA 2025: QUANDO O APITO CALOU ANTES DO FIM

O término antecipado do Moçambola 2025 não é apenas o fim prematuro de um campeonato. É o espelho de um formato competitivo que chegou ao limite e foi obrigado a parar para não cair por completo. Realizar apenas 24 das 26 jornadas previstas é uma decisão dura, polémica, mas que precisa ser analisada com serenidade, justiça e sentido de futuro.

O Moçambola não é um torneio qualquer. Desde 1976, logo após a independência nacional, o campeonato representa muito mais do que futebol. É identidade, pertença, orgulho nacional e esperança para milhares de jovens que ainda acreditam no potencial do desporto. Organizado pela Liga Moçambicana de Futebol, o Moçambola é a maior montra do desporto-rei no país. Por isso, quando ele termina antes do tempo, não falha apenas a bola: falha o sistema.

A edição de 2025 nasceu com fragilidades. Começou tarde, apenas a 17 de Maio, depois de vários adiamentos, e trouxe uma novidade importante: o aumento para 14 equipas, quando em 2022 eram apenas 12. A expansão, em teoria positiva, exigia mais recursos, melhor planeamento e maior capacidade logística. Nada disso acompanhou a ambição. O resultado foi um campeonato constantemente interrompido, com jornadas em atraso, equipas com jogos a menos e um calendário que nunca encontrou estabilidade.

A decisão da LMF de encerrar a prova após a 24.ª jornada surge num contexto de extrema dificuldade financeira. Dívidas acumuladas, impossibilidade de pagar deslocações aéreas e etc. Diante deste cenário, continuar seria prolongar o caos. Parar foi, talvez, o mal menor.

A consagração da União Desportiva do Songo como campeã nacional deve ser analisada com cuidado. A UD Songo liderava a prova e mostrou regularidade dentro das limitações impostas. Não ganhou por acaso. Ganhou num campeonato imperfeito, é verdade, mas jogado sob as mesmas condições difíceis que todos os outros clubes enfrentaram. Retirar-lhe o mérito seria injusto. O problema não está no campeão, mas no campeonato que não conseguiu chegar ao fim.

Também é justo olhar para os que caem. Textáfrica, Desportivo de Nacala e Desportivo da Matola descem num contexto em que nem todos tiveram as mesmas oportunidades competitivas. A descida dói mais quando o campo não foi totalmente justo. Ainda assim, o futebol vive de decisões, e a ausência delas seria ainda mais prejudicial.

No sentido oposto, a subida do Maxaquene, do LD Sofala e da Associação Desportiva de Pemba mostra que, apesar de tudo, o futebol nacional continua vivo nas três regiões do país. É um sinal positivo, mas também um aviso: colocar mais clubes no Moçambola 2026 sem resolver os problemas estruturais de 2025 seria repetir o erro com maior risco.

A arbitragem, muito criticada ao longo da época por clubes e adeptos, foi mais um actor de desgaste. Mesmo não sendo a causa principal do colapso, contribuiu para a desconfiança geral e para a sensação de um campeonato pouco credível. Um futebol forte precisa de árbitros protegidos, formados e respeitados, mas também responsáveis e avaliados com rigor.

O que fica desta edição é uma lição clara: não há futebol sustentável sem planeamento realista. Não basta querer um Moçambola maior; é preciso poder sustentá-lo. É urgente rever o modelo de financiamento, garantir parcerias sólidas, definir um calendário exequível e assegurar que os clubes entram na prova com condições mínimas garantidas até ao fim.

O Moçambola 2026 não pode ser apenas mais uma edição. Tem de ser um recomeço sério. Um campeonato mais organizado, transparente e previsível. Menos promessas e mais garantias. Menos improviso e mais responsabilidade.

O apito final soou antes do tempo em 2025. Que esse silêncio sirva não como resignação, mas como momento de reflexão profunda. O futebol moçambicano merece mais. E ainda vai a tempo de provar isso.

 

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